Este Lugar



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quarta-feira, julho 04, 2018

O Enterro do Mestre de Capoeira

Debaixo de um guarda-chuva xadrez protetor do sol escaldante do meio-dia da ilha de São Luís do Maranhão, o velho magro homem com longuíssimo branco cabelo rastafári saiu andando com seu passo manco em direção à saída do cemitério, após comparecer ao enterro de seu antigo rival de capoeira. O mestre morto contava histórias mirabolantes sobre as lutas com seu inimigo camarada. Era uma lenda esse antagonista e já cheguei a desacreditar de sua existência. Enterrado o mestre, após um cortejo de berimbaus para lá de fúnebre, o rival ia embora. O que estaria passando pela sua cabeça? Poética cena, de filme. Provavelmente o agora defunto mestre imaginaria a atmosfera inexplicável que se formou em sua despedida. Antes do corpo ir para debaixo da terra, no velório, um pesar imenso, uma dezena de berimbaus tocando, pessoas que se gostavam e que tinham lá suas desavenças - inclusive com o mestre que se foi - chorando e batendo palmas juntos, com grande reverência e respeito. Difícil se dissolver da minha memória a imagem da sua aluna veterana tocando o toque fúnebre no berimbau, altva, sóbria, mas com olhos verdadeiramente tristes. Lembro que ela jogava como bailarina, não provocava ou ofendia seu oponente, mas difcil levar rasteira. E o mestre, em seus dias de guerra, se zangava com tanta passividade e não entendia por que ela não mostrava a capoeira que ele sabia que ela dominava. Era encantadora a imagem dos capoeiras marrentos chorando como crianças, desarmados e inconsoláveis. Não, não eram lágrimas de crocodilos, definitivamente não eram. É que ele era assim: com sua arte, sua genialidade, seus adoráveis e por vezes irritantes defeitos, simplesmente desarmava. Dos muitos mistérios que a vida tem, um deles é o fato inexplicável de uma pessoa vir ao mundo e transformar espíritos dessa maneira. No velório, as tocadoras e os tocadores de berimbaus estavam posicionados em semicírculo em volta do caixão. Quis muito ver o corpo e, para isso, precisei me embrenhar pelo canto da parede até chegar perto. Lá estava ele: com uma boina xadrez, uma bata branca, uma bandeira de alguma agremiação de luta. Que vontade de trá-lo de lá e, com ele, todas as mazelas do mundo. Inacreditável, ele morreu. Simplesmente. Parecia que os berimbaus não queriam parar de tocar iúna, mas pararam, assim como o coração uma hora para e não tem mais jeito. E é preciso se resignar. Nem sempre teremos a próxima chance, sabemos disso, mas preferimos arriscar. Era hora de fechar o caixão. O cuidado da viúva espantando bichinhos invisíveis é a prova singela de que o amor existe e que não tem nada a ver com viagens românticas em cruzeiros. Os capoeiras encaixaram a tampa e, que agonia, como ele iria jogar sua mágica capoeira em espaço tão pequeno e sem ar? Tudo bem, ele não precisaria mais disso, ele mesmo transformara-se em espaço, ar e mistério. O corpo saiu do velório, a carreata se dirigiu ao cemitério florido. No cortejo, a menininha de calça roxa, com uma expressão sóbria e serena, carregava uma for e compunha a mais singela das cenas. A procissão com mais toque de iúna, os berimbaus insistam em tocar. Eu não queria que parassem, pois se parassem o mestre ia mesmo embora. Enquanto a iúna ecoasse, estaria ele no limbo entre a vida e a morte, um pouco aqui e um pouco lá. E veio uma saudadezinha da época em que cheguei no Maranhão, com bastante tempo e disposição para cultivar em sua escola de capoeira sementinhas de amizade que germinaram e duram até hoje. Discursos. Agradecimento à contribuição que ele deu à fundação da ginástica olímpica no Maranhão, agradecimento de um aluno do sudeste pela acolhida do mestre e a declaração de que este mudara sua vida, colocara-a de cabeça para baixo. Os berimbaus pararam. O corpo seguiu em direção à cova. Atrás dele, o toque de iúna soou novamente. Nem sei por que, fui ficando por último e acabei ajudando uma mulher a levar uma coroa fúnebre que tinha ficado para trás. O arranjo era grande e pesado, tivemos que carregar em duas, ela andava mais rápido que eu, mais rápido que o caixão até, o arranjo foi ficando atravessado, que diabos estava eu fazendo carregando aquele troço? Até que defunto, cortejo e fores chegaram à beira da cova. Os coveiros começaram a descer o caixão, e que vontade de puxar aquelas cordas e provar por A mais B que estava tudo errado, que o universo todo estava, que ele ia levantar. Mas o caixão desceu. Uma senhora se apressou em jogar fores, eu só via seu traseiro, estava muito inclinada, a cabeça quase dentro da cova, não sei como não caiu! Imagino que o mestre teria sorrido dessa cena. Formou-se uma roda de tambor de crioula, todos cantaram, tocaram e dançaram. Um capoeira muito próximo dele compôs na hora uma bonita música em sua homenagem: “eu pensava que eu tinha um mestre que me trava do perigo, mas eu tenho mesmo é um amigo”. O toque ia ficando triste, até que resolveram tocar samba de roda, para terminar com alegria, do jeito que o mestre gostava. Seus filhos sambaram, de olhos inchados. Havia naquele ambiente uma mistura de tristeza e euforia, lágrima e sorriso, música e silêncio, lembrança boa e ruim. Mistura de rivalidade e reverência, de coesão e conflito. De vida e de morte. Em meio a tudo isso, os coveiros colocavam em prática a sua ciência. Sobre a cova tampada com terra, foram colocadas as coroas de fores e eu arrumei ali a que tinha carregado com tanto desconforto. Nesse ritual, passou o mestre, passamos nós: ele se foi, deixou sementes, arbustos e frondosas árvores de arte, mas levou um pouco da alegria do mundo. Parte de nós foi com ele, morreu também, para dar lugar a seres melhores a carregar o que dele ficou: aquilo de bom que nos ensinou e que já se entranhou em nossos espíritos. Os instrumentos se calaram de vez. Não parem! Deixemos tudo como está, mudanças assustam demais. Mas pararam. Fez-se uma grande roda, todos deram as mãos e gritaram um forte iê. Acho que o mestre ouviu, negaceou, olhou de soslaio, acenou e partiu deveras.
Joiza Madeiro
Junho/2017

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