Quarta-feira, Janeiro 13, 2010

O Roçador e o Helicóptero


Alcântara. Um município no estado do Maranhão, com acesso pelo mar. Por ignorância e preguiça, ainda não descobri se é ilha ou se é continente. O fato é que lá existem ruínas da época do Império, povoados seculares, festa do Divino e de São Benedito, e uma base espacial. Passado e presente num mesmo lugar, em constante tensão. A história do povo de lá é triste, gente que, na época da ditadura, teve que dar lugar ao desenvolvimento do país. As pessoas precisaram sair do seu território e hoje moram em agrovilas, longe de mar para pescar, sem terra suficiente para plantar. Não sei os limites do sacrifício humano em nome do desenvolvimento, mas parece óbvio que as pessoas que precisam abandonar suas referências de vida sejam melhor tratadas. Havia um casal, o senhor Manuel a e senhora Constantina. Lá pelos anos oitenta, tendo acabado de se mudar para a casinha na agrovila, se viram sem saber onde plantar a mandioca e o arroz. Decidiram andar seis quilômetros em direção à base espacial e lá iniciar a roça. Era época de capina e todas as manhãs o senhor Manuel andava perto de duas horas para limpar o terreno para o plantio. Num belo dia de sol, sossegou a enxada para prestar atenção no barulho que ouvia de longe. O barulho se aproximou, ensurdecedor, acompanhado de um vento forte sobre sua cabeça: era um helicóptero da aeronáutica. A poeira levantada pelo vento das hélices e o barulho atordoaram o plantador, impedindo-o de continuar. Duas horas depois estava em casa novamente. “O que foi, por que voltou tão cedo?” - perguntou a esposa. “O helicóptero não me deixou continuar”. Os dois se entreolharam intrigados. No outro dia, um camburão com uns cinco fardados parou em frente à casa dos dois, do outro lado da calçada. Dona Constantinta, já chateada de ter perdido seu lar, pensou consigo mesma: “o que esses polícias estão fazendo na porta de um trabalhador?”. Ela chegou até a porta azul de sua casa na agrovila e, de braços cruzados e semblante grave, esperou os fardados se aproximarem. O que eles queriam ela já imaginava: proibir o seu marido de plantar em nome da segurança nacional. O casal, pequenininho por dentro, teve que acatar as ordens das autoridades. Continuam lá, vivos, superando seus dramas. Não podem mais viver da pesca e da roça, mas, dependentes de benefícios da seguridade social, compõem uma sociedade que busca o desenvolvimento. E a nação continua bem segura, tão segura que muitos brasileiros não conseguem transpassar as grades blindadas que a protegem.

O Agente Penitenciário


O lugar, caro leitor, é Alagoas e a personagem é a mesma de sempre. É preciso que haja uma certa paciência porque os lugares não costumam variar muito, tampouco os atores, que são poucos. Mas é que depois que o homem inventou a agricultura e resolveu deixar de zanzar pelo planeta, os seus dias têm sido assim, com cenários e personagens bem parecidos. Há exceções, como os mochileiros, os ripongos, os povos nômades, os índios isolados que o Estado brasileiro insiste em contactar ao invés de proteger o território em que vivem e esperar a sua decisão de se aproximar ou não.

Mas o caso é que Jandira, iludida por um promoção milagrosa de celulares, fez uma assinatura de uma linha que não funcionava e precisou comprar créditos para realizar ligações telefônicas. Na banca de jornal em frente à praia, com as revistas e os vidros embaçados de maresia, reencontrou um antigo conhecido. Ele continuava bonito e com dentes muito brancos, como ela havia guardado na memória na última vez em que o viu, há uma década atrás. Apesar de trabalhar em uma banca de jornais, não tinha perdido a mania de pedir cigarros, coisa que, no passado, a irritava, mas que hoje em dia a fazia rir e pensar até que ponto as pessoas são capazes de mudar. Agora ele tinha herdeiro e um emprego.

Tornara-se agente penitenciário, mas, enrolado com a burocracia, respondia a um processo por abandono de cargo. Com ar pesado e sarcástico, contou-lhe que participou de uma rebelião. Quando os bandidos, armados, tomaram o prédio, ele e os colegas conseguiram escapar por um corredor, correr até as guaritas do portão, sempre seguidos pelos tiros. De lá, viam as cabeças dos estupradores voando –esses são os primeiros que morrem -, sangue, fogo, gritos. Visão do inferno. As guaritas eram altas e tinha mais de uma. Era preciso escada para que eles descessem pelo lado de fora, mas havia só uma. Um agente de seus cinquenta anos de idade e uma barriga esférica esforçava-se desesperado para carregar a escada. O amigo de Jandira, então, se fez de Rambo – como ele próprio com cara de riso contou – e, sem camisa e correndo para lá e para cá, salvou seus companheiro de trabalho. Cena de filme. Disse ele que, se todos os presidiários balançassem as grades, elas cederiam. Eles permaneciam presos porque queriam e se rebelavam também quando queriam. Isso é coisa que todo brasileiro sabe, mas ouvindo assim de alguém tão perto, parece que tem certas coisas em nosso país que são bem piores do que imaginamos.

Jandira continou a ouvi-lo. Andava preocupado com essa convivência com bandidos, queria abandonar o cargo, mas precisava da remuneração. Já havia tentado libertar-se, abrira uma empresa de criação de sites, mas foi à bancarrota. Anda confuso, assim como era antes, pensando que talvez se arranjasse com algum trabalho ligado à natureza. Gosta de informática, mas estupefa-se com a habilidade dos adolescentes em lidar com ela, enquanto ele teve o primeiro computador aos dezoito anos. Havia passado um tempo chateado, dormia catorze horas diárias. Agora parecia bem, com o humor sério e autêntico que Jandira conhecia. Nossa personagem reconheceu-se nele, cheia de dúvidas sobre qual plano fazer para o futuro. Nunca gostou de informática, mas já pensou em viver da natureza. Só que descobriu que, em sua vida, só aprendeu a ser urbana e o máximo que conseguiria seria ser sanitarista em alguma prefeitura. Ficou feliz em vê-lo. Ao despedir-se, abraçou-o e pediu-lhe que se cuidasse. Ela sabia que ele é um sujeito especial. “Que Deus nos ilumine” - pensou ela, no caminho de volta, olhando para o pôr-do-sol no mar azul das Alagoas.

Segunda-feira, Janeiro 11, 2010

Liário


Liário é um brasiliense doidão: cabelo quase na cintura, uma caveira com lua tatuada na perna direita, outra caveira com sol na esquerda. Filho de policial militar que hoje está na reserva, mas que provavelmente fez algumas maldades com os rebeldes da época na ditadura. Liário tem alguns pinos na face por causa de uma briga em algum lugar da capital federal. Começou um curso de biologia, mas não continuou. Dizem que foi modelo, instrutor de auto escola. Chegado em birita e alucinógenos, diz que um dia vai acabar parando por causa da saúde. Esses dias, estava contando o causo do cigarro: vivia pedindo o dito cujo a um amigo, até que o amigo se aborreceu e mandou-o alinhar-se e comprar seu próprio veneno. O brasiliense arretou-se e nunca mais pediu, comprou ou fumou cigarros. Um belo dia, pegou um cigarro do irmão estudioso, responsável, pai de família – mas um brasiliense doidão também – para ir ao banheiro e, na metade do cigarro, a pressão foi a zero e nosso amigo abandonou uma das drogas mais difíceis. Dia desses, de férias nas Alagoas, de posse de sua nadadeiras de quase um metro de comprimento e da sua máscara de mergulho, foi observar peixes e corais na praia de Sonho Verde, maré a zero ponto seis. Sabe-se lá o que essa medição significa, mas o lugar era lindo demais. Foi em companhia de nossa conhecida personagem Jandira, que também levou suas nadadeiras da época que praticava natação e sua máscara. Jandira impressionou-se com a serenidade do rapaz. Parecia que aquele sujeito contemplando o fundo do mar não era o mesmo que havia tido uma briga tão feia a ponto de remendar a face. Gentil e tranqüilo, diferente da maioria desses homens chatos que ela via por aí. Um bom amigo, desses que sabem a hora de chegar e a hora de ir embora. Que não dá muito valor a gentilezas inúteis, mas sabe ser cavalheiro. Capaz de ficar em silêncio sem trimiliques. No dia a dia, longe dos corais, talvez seja autoritário e machista, mas não há como negar que é um bom sujeito. Mais um bom sujeito na vida de nossa personagem...

A Festa da Jurema e o Exu Tranca Rua



Em cima da terra tem a água
Em cima da água tem Deus
Em cima de Deus tem a corôa
Em cima de Deus, tô pra ver, não há.

Era final de dezembro. Passei o dia perdendo tempo com a internet, abrindo a mesma página mais de dez vezes, num exercício ansioso, pensando que a próxima clicada traria um extraordinário acontecimento. Mas a angústia da internet acabou no fim daquele mesmo dia, quando um sujeito de alma brilhante apanhou-me para um passeio. Fomos à casa do Pai Elias, num bairro chamado Grota do Arroz, na periferia da capital alagoana. Quando chegamos, o espetáculo já havia começado no Reino da Jurema. Entramos pela porta de ferro pintada de vermelho e, do lado de dentro e acima dela, havia um símbolo do corinthians. No centro do salão havia um mesa branca com imagens de orixás, de santos e de Jesus Cristo, folhinhas de jurema espalhadas, uns três copos d'água e cinco pessoas vestidas de branco sentadas em volta, cantando. Em pé e também cantando, umas três pessoas e, sentados sem fazer parte da mesa mais umas quatro, ao lado das quais nos sentamos. Num degrau perto da mesa, havia uma garrafa de conhaque e um galão de plástico desses de água com chá de jurema. Na frente de cada um dos componentes da mesa, havia um copo descartável com um pouco do chá, mas não consegui entender se havia algum momento especial para o chá ser tomado. Do lado direito do salão havia um cartaz sobre um movimento de negros homossexuais. De fato, os homens da mesa pareciam ser homossexuais. Um deles, o puxador dos cantos – ou dos pontos – cantava de maneira sublime, enfeitando o ambiente com as músicas da espiritualidade. A entidade que estava lá quando chegamos era Vovó Catarina, que havia pego emprestado o corpo do pai de santo e transformado numa velhinha corcunda trajando um vestido branco de renda e segurando um cachimbo em uma mão e um cajado na outra. Explicaram-me que era a hora da cura: uma moça magra ajoelhou-se diante da Vovó e ganhou muitas baforadas de seu cachimbo. Às vezes a Vovó interrompia o divino canto e resmungava alguma coisa difícil de entender. Dada hora, disse que iria partir: com as mãos na base das costas, levantou-se, abraçou cada um dos presentes e baforou a fumaça santa do seu cachimbo. Segurou-se na mão de um presente, o corpo balançou-se convulsivamente para frente e para trás, e Vovó Catarina partiu para o outro mundo. Pai Elias, parecendo fraco, sentou-se no chão, perguntou o que acontecera e reclamou de dor nas costas. Recuperou-se rápido e puxou um ponto. A música pareceu agitar-se ao ritmo dos caboclos e os maracás apareceram no ritual. De repente, o corpo de uma senhora balançou-se bruscamente para frente e para trás: mais uma entidade chegava. A senhora colocou um chapéu de vaqueiro, tirou seu vestido branco, dando lugar a uma calça branca colada. Linda voz cantando: “Seu Zé quando for nas Alagoas, tome cuidado com o balanço da canoa/ Seu Zé faça tudo o que quiser, mas não maltrate o coração dessa mulé”. Pouco depois, o corpo de Pai Elias recebeu o Tranca Rua, que fez graça para todos os que ali estavam. Disse que tinha um recado para o meu amigo e que mais tarde falaria. Duas pessoas na mesa fecharam os olhos parecendo não passar bem fisicamente e Pai Elias – ou o Tranca Rua –, massageando a nuca de uma de cada vez, disse que a sensação desagradável fazia parte do preparo de suas caminhadas. Cantou-se mais um pouco e o ritual foi fechado. Um homem de pernas compridas apontou dois copos cheios d'água dizendo que era uma água energizada antes do ritual e quem quisesse estava autorizado a bebê-la. Não bebi. Tranca Rua disse que ficaria mais e sentou-se perto de mim e do meu amigo de alma brilhante. Apresentou-se como João e começou sua prosa. Falou que a espiritualidade é uma coisa real, concreta e que anda ao lado da materialidade. Era um malandro do Rio de Janeiro, amara só uma mulher na vida, mas tivera muitas paixões. Perguntou ao meu amigo quem o protegia e ele respondeu que era Deus. Tranca Rua quis saber o porquê e a resposta foi que é porque maior do que Deus não tem. Diante da resposta, o malandro disse que existem degraus até chegar a Ele e esses degraus são os seres do outro mundo. A função do Tranca Rua é falar sobre os caminhos das pessoas: a mim, disse que eu precisava de um “estudador” para um dia, em minha vida, "bater o martelo"; para meu amigo, falou que haveria um acidente de carro com alguém próximo e que ele receberia uma proposta de emprego para trabalhar com a natureza. Disse, ainda, que eu teria um filho com ele e que a gente ia "se amarrar". Ao meu amigo, disse que as palavras dirigidas a ele eram um recado da Vovó Catarina. Uma mulher pediu-lhe um conselho sobre ter um filho e ele reespondeu que tudo bem se ela estivesse preparada. Tranca Rua não é desse mundo, e muitas palavras e expressões ele não entende, outras não explica. Bebeu várias doses de conhaque e fumou charuto. Embora do Rio de Janeiro, tinha um sotaque arretado nordestino. O corpo afeminado de Pai Elias deu lugar a um malandro galanteador que quase que me conquista! Ao lado de Tranca Rua, havia uma bacia com areia e uma vela acesa e, às vezes, um cachorrinho peludinho aparecia e latia para ele. O espetáculo estava quase no fim. Tranca Rua despediu-se, dizendo que o senhor do Bonfim abençoasse todos dali. Mais uma vez o corpo do Pai Elias foi sacudido por uma entidade que partia. “Acabou?” - perguntou Pai Elias com cara de quem tinha chegado naquele momento. Apresentou-se a nós visitantes, embora seu corpo houvesse conversado conosco perto de uma hora. Despedimo-nos. Antes de partirmos, Pai Elias explicou que seu terreiro era de candomblé e não de umbanda e que as festas para os caboclos aconteciam em lugar separado das festas para os orixás. Na volta, sete pessoas voltaram em um carro. Pareciam uma tribo com linguajar próprio difícil de entender em alguns momentos: falavam de ogans, exus, pretos velhos. A moça magrinha estava preocupada com o que havia ouvido do Tranca Rua – ele havia dito que ela precisava de ajuda, que estava muito doente. Um outro falava que o Tranca Rua havia acertado todas as premonições sobre seu último namorado, mas que as pessoas têm livre arbítrio para aceitar ou não o destino predito pelas entidades. Descemos do carro. Fiquei um pouco atordoada com o fato de a entidade jogar assim com a vida das pessoas, predizendo acontecimentos tão sérios como nascimento, doença e morte. Meu amigo disse que conversamos com um gaiato boêmio da rua e que não era preciso levar tão a sério o que ele havia dito. Eu ri e concordei. Mas fiquei intrigada com o fato de andar tão preocupada com os caminhos a seguir na vida e aparecer-me justo o Tranca Rua lá do além para conversar comigo. Fui dormir com cheiro de defumador e pensando se realmente existe algum mistério na vida ou se tudo é tão óbvio que até parece magia.

Terça-feira, Janeiro 05, 2010

Notícias da Jandira



Meiroca, sempre de regata colorida, e Luiz deixaram Jandira no aeroporto. Meiroca andava meio borocochô, vinha tendo que dividir seu amor com outra. Luiz estava de mudança, do sul para o nordeste, do friozinho de pinguim para o calor de guarás vermelhos. Jandira andava agoniada com as escolhas que fizera para a sua vida até então. De violão na mão mesmo sem saber tocar grandes coisas, estava prestes a viajar. Os três tomaram sorvete de fast food de aeroporto. Jandira pegou seu avião e ainda está sem saber o que foi feito dos dois amigos. Anda tomando muito sol, zanzando por praias com recifes de coral, fotografando acasos, tentando tocar pífano e pensando na vida. Às vezes lembra de um grande amor, em outras lembra de vários outros pequenininhos. Anda egoísta, sem se preocupar com problemas práticos da sociedade brasileira: concentração de renda, luta pela terra. Gostaria de ganhar no concurso da mega sena acumulado em não sei quantos milhões para poder dar umas voltas pela América Latina. Encontrara uma antiga conhecida, vinda do Panamá, que ganha a vida andando em pernas de pau e fazendo palhaçadas. Não é vida mansa não, mas é vida de arte! A amiga já levara uma pedrada fazendo malabares no sinal e já caíra da perna de pau, mas está lá, firme e forte, morando numa casa com sete pessoas! E Jandira com inveja. Inveja da amiga que ganhou o mundo e foi parar no Panamá e inveja de um amor perdido que passou num concurso público. Inveja de dois extremos de forma de viver. E ela ali no meinho dos extremos: funcionária pública com vontade de ganhar o mundo. Às vezes gostaria de ter um filho, assim como fizeram os amigos Alexandre, Acrísio e o amor perdido. Em outras, seria melhor só um sobrinho. Um namorado, talvez. Ou não, melhor seria ter vários, um em cada canto. O fato é que não sabe. Mas parece bem feliz. Sem grandes paixões, mas apaixonando-se todos os dias por pequenos detalhes de comportamento de pessoas possíveis e impossíveis. Atividades, as mais lúdicas: pífano, fotografia e mar. E vai seguindo. Com um pouco de saudades de Mizael e da cachorra de raça forte. Está aprendendo a viver sem aquele barulho chato de liquidificador na alma.

Sexta-feira, Janeiro 01, 2010

Trinta e um de dezembro

Praia.
Pedras.
Peixes coloridos,
Feixes doloridos
De uma tristeza sem começo.
Difícil atravessar a floresta de ouriços.
Vi sua mão a me ajudar.
Mão de cavalheiro, de capoeira.
Por hábito, não aceitei.
Obrigada por estar lá
Com olhos, ouvidos...
Com gentileza.

Terça-feira, Dezembro 15, 2009

Estas Mãos (Cora Coralina)

Olha para estas mãos
De mulher roceira,
Esforçadas mãos cavouqueiras.

Pesadas, de falanges curtas,
Sem trato e sem carinho.
Ossudas e grosseiras.

Mãos que jamais calçaram luvas.
Nunca para elas o brilho dos anéis.
Minha pequenina aliança.
Um dia o chamado heróico emocionante:
-Dei Ouro para o Bem de São Paulo.

Mãos que varreram e cozinharam
Lavaram e estenderam
roupas no varais.
Pouparam e remendaram.
Mãos domésticas e remendonas.

Íntimas da economia,
do arroz e do feijão
da sua casa.
Do tacho de cobre.
Da panela de barro.
Da acha de lenha.
Da cinza da fornalha.
Que encestavam o velho barreleiro
e faziam sabão.

Minhas mãos doceiras...
jamais ociosas.
Fecundas, imensas e ocupadas.
Mãos laboriosas.
Abertas sempre para dar, ajudar,
unir e abençoar.

Mãos de semeador afeitas
à sementeira do trabalho.
Minhas mãos raízes
procurando a terra.

Semeando sempre.
Jamais para elas
os júbilos da colheita.

Mãos tenazes e obtusas,
feridas na remoção de pedras e tropeços,
quebrando as arestas da vida.
Mãos alavancas
na escava de construções inconclusas.

Mãos pequenas e curtas de mulher
que nunca encontrou nada na vida.
Caminheira de uma longa estrada.
Sempre a caminhar.
Sozinha a procurar,
o ângulo perdido, a pedra rejeitada.

Tchau

Desejo-lhe boa viagem
Sem falsa camaradagem
Continue a brilhar
No seu próximo lar
Não chore à tôa
Lembre que a vida é boa
Seja sempre forte
Aproveite a sorte
Pode continuar louca
De estabilidade pouca
Mas também seja careta
Às vezes é porreta!
Ligue se precisar
Estarei lá, pode contar
Se for muito urgente
Não se apoquente
Chega de brincadeira
De tanta asneira
Enrolar muito não dá pé
O fato é que em você eu boto fé
Por isso seja feliz
Só não vale ser meretriz!
Desculpe, sou meio tonta
Pelo menos a rima está pronta!

Cobra Dálmata

-Olha! Uma cobra dálmata!
-Mas dálmata não é cachorro?
-Não, não é dálmata então: é cascavel!
-Cascaval preta e branca?
-Ai, burro! É que a tinta dela é preta e o papel é branco.
-Eu não sabia que cascavel nascia de tinta e de papel...
-Nem eu.

Segunda-feira, Dezembro 14, 2009

O Concurso da Jandira


Jandira resolveu fazer um concurso público. Já era servidora da grande máquina prepotente, mas resolveu que não queria mais permanecer no compartimento em que se encontrava. Comprou livros, estudou como quase condenada. Começava às onze da noite, ia madrugada adentro, até quatro ou cinco da manhã. Rama e Romã, cadelas de raça forte, herança de Mizael, faziam-lhe companhia com aqueles olhos de cachorro que parecem sempre questionar aos seus donos qual o sentido daquilo que eles fazem. O fato é que Jandira não passou no concurso. Por meio ponto. Meio ponto! Quando viu a correção da prova escrita, descobriu que os examinadores haviam encontrado seus erros fatais. Um deles foi uma vírgula que, misteriosamente, estava faltando em um período. Outro foi que, na hora de passar a limpo, nervosa, invertera a ordem de dois parágrafos. A penalidade foram setenta e cinco décimos e o erro fora o de paragrafação. Ainda teve aquele em que à pergunta cuja resposta seria sim, não ou tanto faz, ela respondeu um não, quando a verdade era o tanto faz. Tanto faz lembrava-lhe muito Mizael. Mas isso não é caso a contar por agora. Ele estava pelos andes com os hermanos, enquanto ela chorava por seu meio ponto de prova de concurso.

Inconformada com a falta do tal do meio ponto, tentou entrar com recursos. Dez horas da noite, foi até um famoso curso preparatório para concursos e lá ficou esperando o professor de português acabar sua aula. Acabou exatamente às dez e quinze. Ele aparentava uns sessenta anos, cabelos grisalhos e encaracolados, jaleco branco. Parecia um personagem de gibi da infância de Jandira. Antes que ela falasse com o ele, seu colega de trabalho despediu-se, dizendo que, em busca de qualidade de vida, deixaria de ser professor de cursinho. Depois dessa conversa, o senhor grisalho perguntou o que Jandira queria. Ela mostrou-lhe duas redações e quatro questões discursivas para que ele encontrasse algum recurso possível. Desesperou-se o quase personagem de gibi. Disse que trabalhava das oito da manhã às oito da noite e que não tinha tempo para ajudá-la. Ela, então, pediu que ele apenas descobrisse onde é que os examinadores queriam que ela colocasse a tal vírgula de uma das redações. O professor, com a cabeça já cansada de tanta aula, leu e releu o parágrafo, até que descobriu o erro. Bronqueou Jandira por ela ter escrito um período tão longo. Falou até alto, incorfomado. Mas pegou sua apostila surrada, cheia de grifos e, correndo os dedos com as unhas sujas de pincel de quadro branco, mostrou-lhe o porquê de os examinadores terem sentido a falta da vírgula. Disse que, no recurso, ela deveria argumentar que aquilo não poderia ser considerado um erro e sim uma questão de estilo de escrita. Jandira agradeceu-lhe e foi embora.

No caminho de volta, já onze da noite, sentiu tamanho orgulho daquele senhor professor. Ele tinha olheiras e sujeira de pincel sob os dedos, além de carregar uma apostila surrada e vestir jaleco branco. Mesmo reclamando, dando-lhe broncas pelos seus períodos longos, ajudou Jandira - uma estranha que não pagava mensalidade para o curso onde ele lecionava. Sentiu orgulho de ser brasileira e de morar na capital do Maranhão, ilha cheia de gente marrenta como o professor, mas sempre pronta a ajudar. Havia esquecido o valor dos professores brasileiros. À medida em que seus cabelos vão ficando brancos e suas unhas sujas de tinta de pincel, os alunos vão tornando-se funcionários públicos ou médicos. E eles continuam lá com seus jalecos, seus pequenos salários e suas apostilas surradas.

O Dia em que Jandira Descobriu que era Incompetente


Era exatamente meio-dia. O telefone tocou e Jandira atendeu. Sem saber se dizia bom dia ou boa tarde, disse o tradicional “alô”. Era a moça da portaria avisando a chegada dos convidados para a reunião. Desceu as escadas, conduziu os convidados até a sala exageradamente refrescada pelo ar-condicionado. Avisou à presença mais ilustre – a do Coronel – que os pescadores se atrasariam porque a barca que os transportaria do continente interior até a ilha capital zarpara depois do previsto. O Coronel, que, de helicóptero, chegara vinte minutos após a hora marcada, disse que não esperaria os atrasados pescadores dependentes do transporte marítimo coletivo. O fato é que a reunião começou antes da chegada deles.

Os presentes se sentaram ao redor da mesa oval, Jandira ficou de costas para eles, para poder ficar defronte ao computador. Ligou-o, tentou abrir o arquivo modelo, sem sucesso. Enquanto tentava, o burocrata chefe iniciava o tedioso espetáculo. Conversa vai, conversa vem, os pescadores chegaram. Depois de acomodados, um deles se pronunciou: “para terminar um caminho, é preciso começar outro”. Tratava-se de um acesso à praia que havia sido fechado por autoridades militares. Caminho que, quando aberto, beirava um abismo. Desumano. Difícil carregar bicicleta, peixes, caixas com gelo e utensílios de pesca. Alguns pescadores - uns indignados, outros maliciosos - cortaram cercas, o patrimônio público, e o Coronel interditou o caminho. Às reivindicações dos pescadores, o Coronel respondeu dizendo que o caminho disponível era à beira do abismo e ponto.

Jandira ia anotando. A essa altura, tinha conseguido abrir o famigerado programa. A conversa prosseguia: o pescador tentando abrir seu caminho, o Coronel tentando fechá-lo. Dada hora, a reunião acabou: o Coronel reabriria o caminho e os pescadores voltariam a andar na beira do abismo até que as autoridades militares resolvessem melhorá-lo. Geralmente, esse tipo de reunião acaba assim: em nome do desenvolvimento do país, tudo continua como estava antes. E Jandira cada vez menor. Hora de formatar o texto: os pontos, as vírgulas, o parágrafo e as orações foram impostos pelos chefe burocrata. Jandira ficara de costas para os reunidos, em frente a um computador que não funcionava direito, e não teve pulso sequer para formatar seu próprio texto.

Concluiu, então pela sua incompetência: nunca conseguiu entender os trâmites da papelada, nem aprendeu a falar desnecessidades em reuniões nem sempre tão improdutivas. Sua prostração era tamanha, que seu chefe transformara-se naquele que sempre tomava as decisões finais: determinava até mesmo o lugar dos pontos, das vírgulas, das orações e dos períodos das famigeradas atas. Incompetente a infeliz da Jandira. Desanimada, deixara de estudar há uns anos. Burocrata submissa à espera de uma ordem que realmente lhe interessasse cumprir.

José Davi e Maria Alice


Mil novecentos o oitenta. José Davi, vinte anos, regou o último pé de mandioca da pequena plantação no interior do estado de São Paulo, olho para cima, respirou fundo e começou a sonhar: pensava em Maria Alice, que seria sua esposa dali a um mês. Agradeceu a Deus por tê-la mandado para amá-lo e rezou um pai nosso. Foi tomar seu costumeiro banho de cuia das cinco da tarde e, depois, passou seu desodorante de leite de rosas. Penteou o cabelo de lado e botou a camisa para dentro da calça. Ia encontrá-la, precisava estar bem apresentado. Montou em sua bicleta e, assoviando, imitando canto de um passarinho qualquer, deu início ao seu caminho.

Lá pelas tantas do caminho, viu um táxi cambaleando pela estrada, que parou, e dele saíram dois homens bem vestidos da cidade. Olhou janela adentro, o motorista agonizante, ensanguentado e esfaqueado pedia ajuda. José Davi, que na roça aprendera que Deus manda ajudar quem precisa, prontamente entrou no táxi, tomou o lugar do motorista e o levou até o hospital. Lá chegando, teve que esperar a polícia. Contou a história e ficou detido até que se esclarecessem os fatos. Os dois bonitões foram encontrados e, em seus depoimentos de espertos da cidade, disseram que era tudo mentira de José Davi e fora ele quem cometera o crime. O taxista não viveu para contar a história. A polícia acreditou nos urbanóides e encarcerou o simplório agricultor. Nada de casamento. Mas Maria Alice havia sido escolhida por Deus para amar José Davi. Em companhia da futura sogra e contrariando a família, todos vigésimo dia do mês vestia seu vestido mais bonito e ia visitar o amado injustiçado. Após três anos, a mãe dele morreu e a família dela não mais permitia a sua visita ao presidiário.

A sorte foi que, um ano depois, em um mercadinho, o dono, agaixado arrumando mantimentos, ouviu a conversa de dois homens que chegaram e não o viram: “olha, não beba mais, a sua última bebedeira rendeu a morte de um taxista e a prisão de um inocente”. E o outro: “tá bom, eu matei mesmo, estava bêbado, mas vou me controlar”. O santo dono do mercadinho avisou à polícia que, depois de algumas investigações, libertou José Davi. Não é que, depois de um ano sem vê-la, Maria Alice estava lá à sua espera? Os dois conseguiram se casar! Mas João Davi nunca permitiu que ela engravidasse porque esse mundo é cruel demais para botar gente de bem no mundo.

Dois mil e nove. Gino, jornalista, trinta e poucos anos, um filho de sete, estava, em companhia de um amigo, esperando o ônibus no centro da ilha capital do Maranhão. Ouviram um tiro e, logo em seguida, uma mulher gritando por socorro. Os dois foram acudi-la e, quando a polícia chegou, a maluca disse aos policias que Gino e seu amigo haviam sido os autores do tiro. Os fardados acreditaram e, prontamente, promoveram-nos a bandidos e enfiaram-nos no porta-malas do camburão. Seguiram caminho inverso da delegacia e, numa rua escura, pararam o carro, a procura da arma do crime e da confissão. Humilharam-nos e criticaram a cor da pele e o cabelo sarará do amigo de Gino. Mesmo sem ter achado a arma, levaram-nos até a delegacia, engavetaram-nos em uma cela, ao lado de um sujeito sob efeito de craque, gritando a noite toda pelo juiz. De manhã o delegado chegou, não encontrou arma nenhuma e soube que a mulher ferida, já calma, reconhecera que se enganou quanto ao autor dos tiros. Gino e o amigo foram para casa. Gino, durante um mês, sonhava todos os dias com as cenas e pensava o que poderia fazer para proteger seu filho dos males desse mundo. Concluindo que não havia meios, desesperava-se. Mas, como o tempo cura tudo, o fato adormeceu.

Assim a vida segue. João Davi e Maria Alice sem seus filhos e Gino tentando achar um mundo menos injusto para o seu.

Quarta-feira, Dezembro 09, 2009

Poesiazinha

Um banho de mar.
Pé na areia, mão na testa.
Respiro, respiro.
Dói no peito, dói.
Não explico.
Lágrima de cachoeira.
Alegria, alegria encontrar você no seu caminho de flor.
Da esquerda, pela direita.
Onde o sol deixar, onde seu olhar pousar.
Estou aqui, estou.
Ali, em alguma trilha de cor.
Acolá, se você também for.

Olivier

Cuide-se, querido amigo
rode mesmo o mundo
vire-o pelo avesso
deixe o mundo rodá-lo
virá-lo de ponta-cabeça
piruetas, cambalhotas
tudo vale à pena cantar
ciranda, reggae, cacuriá
é merecido dançar
só girei nesses versos
nada disse com substância
tudo bem, apenas quis falar
e...rodar