“Você pegou seu radinho?” - perguntou, preocupado, Celestino a Mizael, que respondeu um “sim”, já com os fones encaixados nos orifícios dos seus ouvidos sonhadores. Não era bem um radinho, era um mp4, essas novas tecnologias que gravam, tocam, cantam e dançam. Mas não deixava de ser um rádio dos nossos tempos. E lá iam os dois caminhando embaixo do sol, Celestino de chapéu de palha, Mizael com camisa amarrada na cabeça, ouvindo suas músicas, alheio às palavras do outro. Quando ia falar, gritava, achando que o amigo ouvia o mesmo barulho que ele. “Você está gritando!” - advertia o do chapéu, um tanto irritado com a ausência do de fone de ouvido. Celestino, uma geração antes de Mizael, ia devagar, observando plantas, procurando cacarecos para guardar ou transformar em alguma obra de arte sem muita pressa. Mizael também ia devagar, degustando a música que saia do aparelhinho que não fizera parte da juventude do primeiro. E foram andando.
Em outro lugar da cidade, em outro dia, outro momento, acontecia uma roda de capoeira em homenagem ao aniversário do doido mestre. Em dado momento, apareceu ele cansado, com a sua filha pequenininha no colo, que dormitava abraçada com um embrulho vermelho amarrado com laço de fita, guardando bem guardado o presente do pai. Ele vestia sua calça surrada de linho com um furo bem perto do joelho, tinha olheiras, mas não parecia triste. Estava quieto, apenas quieto, apreciando o espetáculo em sua homenagem.
O salão estava lotado. Lá na frente, a bateria: berimbaus, atabaque, pandeiros, reco-reco, agogô. Um côro vigoroso, respondendo aos versos do cantador. “Angola êêê, Angola ê, Angola!”. No centro, duplas iam materializando a capoeira: quem sabia jogar, jogava, quem sabia gingar, gingava, e quem não sabia nada disso, dançava a dança da celebração. Chegou a hora dos parabéns. Já viu, caro leitor, parabéns cantado por berimbau? Um espetáculo, infinitos minutos da música ritual. Ao final, salva calorosa de palmas que duraram muito mais tempo do que aquelas palmas mecânicas que só acontecem porque alguma apresentação chegou ao final. Eram palmas de louvação ao mestre que foi capaz de unir toda aquela gente a cantar e a jogar na roda da capoeira e ensinar-lhes a estender tudo aquilo à roda da vida. Discursos, muitos discursos. Mas ele continuava amuado, vai lá saber o porquê.
Hora do bolo. Gigantesco, todo branco, delicioso. Os capoeiras se atropelaram um pouco para degustá-lo, mas logo se acalmaram ao perceberem que havia o bastante para todos. Vai lá saber por que as pessoas se afobam diante da comida nas festas. Parece que se o convidado não comer um pouquinho que seja da comida, ele não esteve por completo nelas. Enquanto o bolo ia desaparecendo pelos estômagos afora, a pequenininha dormia, respirando fundo, cansada de tanta festa. O mestre quis ir embora, as menininhas precisavam de suas camas e ele também. E lá foi ele, com olhar pensativo, descendo as escadas e carregando a maiorzinha, enquanto sua esposa carregava a bebezinha. A festa continuou por mais algumas horas, e os convivas celebravam não mais o aniversário de uma pessoa, mas tudo o que ele construíra. O mestre agregara pessoas, ensinara-lhes a olhar nos olhos para jogar capoeira, a cantar em côro, a ter malícia diante do mundo. Estava tudo pronto, ele já podia ir embora porque sabia que seu edifício permaneceria erguido por muito tempo. Em seu discurso de agradecimento, com o mesmo semblante que parecia uma mistura de seriedade, emoção e melancolia, declarou: “enquanto eu tiver o movimento de um dedo que seja, eu não vou parar”. Mestre é assim, constrói coisas que não param, edificações que se alienam do criador e adquirem vida própria.
No outro dia, vestindo a camisa que estava no embrulho guardado pela pequenininha, parecia mais animado. Ganhou um saco de jambos, distribui-os pela vizinhança, alegre e conversador. Houve notícias de que foi com as crianças, a esposa e um capoeira até o parquinho e, em seguida, foram comer pizza. Sim, o mestre tem vida própria, normal, sofrida, tem que administrar os parcos recursos que consegue com sua arte para alimentar as crianças, pagar escola, ajeitar a fiação do antigo casarão no centro de São Luís. Mas é autêntico, tem brilho nos olhos e continua lá cheio de idéias, cantando ladainhas, repassando sonhos aos seus alunos e às suas pequenininhas.
Enquanto o mestre sonha e vai vivendo com seus olhos brilhantes e melancólicos, Celestino e Mizael continuam andando em trilhas barrentas. A essas alturas, depois de contada a história do mestre, eles já voltaram para a oficina de Celestino, estão cansados estirados em redes coloridas, fumando cigarros santos, maquinando alguma traquinagem. Não se sabe onde se encontram as vidas do mestre e a de Celestino. Mizael, por hora, é apenas coadjuvante, o enfeite colorido da história que continuou e está acontecendo agora, e talvez um dia seja melhor contada.
