Alcântara. Um município no estado do Maranhão, com acesso pelo mar. Por ignorância e preguiça, ainda não descobri se é ilha ou se é continente. O fato é que lá existem ruínas da época do Império, povoados seculares, festa do Divino e de São Benedito, e uma base espacial. Passado e presente num mesmo lugar, em constante tensão. A história do povo de lá é triste, gente que, na época da ditadura, teve que dar lugar ao desenvolvimento do país. As pessoas precisaram sair do seu território e hoje moram em agrovilas, longe de mar para pescar, sem terra suficiente para plantar. Não sei os limites do sacrifício humano em nome do desenvolvimento, mas parece óbvio que as pessoas que precisam abandonar suas referências de vida sejam melhor tratadas. Havia um casal, o senhor Manuel a e senhora Constantina. Lá pelos anos oitenta, tendo acabado de se mudar para a casinha na agrovila, se viram sem saber onde plantar a mandioca e o arroz. Decidiram andar seis quilômetros em direção à base espacial e lá iniciar a roça. Era época de capina e todas as manhãs o senhor Manuel andava perto de duas horas para limpar o terreno para o plantio. Num belo dia de sol, sossegou a enxada para prestar atenção no barulho que ouvia de longe. O barulho se aproximou, ensurdecedor, acompanhado de um vento forte sobre sua cabeça: era um helicóptero da aeronáutica. A poeira levantada pelo vento das hélices e o barulho atordoaram o plantador, impedindo-o de continuar. Duas horas depois estava em casa novamente. “O que foi, por que voltou tão cedo?” - perguntou a esposa. “O helicóptero não me deixou continuar”. Os dois se entreolharam intrigados. No outro dia, um camburão com uns cinco fardados parou em frente à casa dos dois, do outro lado da calçada. Dona Constantinta, já chateada de ter perdido seu lar, pensou consigo mesma: “o que esses polícias estão fazendo na porta de um trabalhador?”. Ela chegou até a porta azul de sua casa na agrovila e, de braços cruzados e semblante grave, esperou os fardados se aproximarem. O que eles queriam ela já imaginava: proibir o seu marido de plantar em nome da segurança nacional. O casal, pequenininho por dentro, teve que acatar as ordens das autoridades. Continuam lá, vivos, superando seus dramas. Não podem mais viver da pesca e da roça, mas, dependentes de benefícios da seguridade social, compõem uma sociedade que busca o desenvolvimento. E a nação continua bem segura, tão segura que muitos brasileiros não conseguem transpassar as grades blindadas que a protegem.
SOBRE CB E OS RESTOS INÚTEIS
1 dia atrás
