Coitada da Jandira. A bichinha levou um tombo, caiu que se estabacou. Muita gente veio ajudar, mas ela se sentiu tão só ali no chão, pequenininha, enxergando monstros disfarçados de seres humanos. Levara uma rasteira: a capoeira diagnosticara suas fraquezas mas ela não aprendera a se defender a tempo. Anda casmurra a pobre, cansada de ser vítima de si mesma, e igualmente cansada de cavar fortalezas. Gostaria que alguém a salvasse, qualquer pessoa que lhe desse as mãos e beijasse sua barriga cada dia mais dura. Ganhou um presente a Jandira, mas ainda chora quase todos os dias...
Brancas Pautas
Terça-feira, Fevereiro 21, 2012
Sexta-feira, Fevereiro 17, 2012
Gente
Gente é um bicho muito imprevisível mesmo, leitor. Não dá para saber de quem virá um chute ou um maldizer. E vem na maioria das vezes de quem está perto. Seguro mesmo seria manter lonjura segura de qualquer ser humano, ser um gatuno solitário imerso no tempo do mundo. As pessoa enfraquecem umas às outras, traçam labirintos de frustações e os transferem para quem está perto. E assim seguimos acreditando em fraquezas que não são nossas, mas de alguém que precisava de um colchão inflável para amortecer o impacto de uma existência medíocre. O que há ao nosso redor é assustador, muita gente ruim que só se dá bem, muita gente boa que só se dá mal. Destino? Não, leitor, é pura distração. Por vezes nos distraimos como nosso próprio vazio e deixamos pessoas igualmente vazias nos preencherem e, assim, o nada se multiplica como praga. Segurança interior é difícil conseguir nessa vida porque há sempre quem queira esburacá-la apenas para presentear o ego. O desespero chega por conta de atitudes alheias incompreensíveis e perdemos boa parte da existência. O outro não é parâmetro para o futuro. Nem ideais fabricados em mesas de palácios de reis emperucados. Não gostaria de fazer mal a ninguém, nem mesmo de desejá-lo, mas seria bom se não fossem necessários bom-dias, gentilezas e abraços. Melhor seria explorar minha humanidade mergulhada em alguma arte ou ofício que valesse à pena. Livrar-me-ia de bailes de carnaval, bares com cheiro de fumaça e álcool, homens bonitos e frios. Não faz sentido dar um abraço em alguém um dia e no outro matar-lhe a alma. Melhor não dar bom-dia, seguir a vida com sorriso raro, mas deixar todo ser humano imerso em sua paz. O mundo não é da minha espécie, mas não vejo mal em querer zelar por ela. Não vou reaproveitar lixo, frequentar passeatas, fazer pressão no parlamento ou greve de fome. Tentarei, a partir de hoje, apenas zelar por mim mesma. Individualismo? Certamente. Mas é melhor do que assassinar almas de bem com ideais tolos.
Domingo, Fevereiro 05, 2012
Este Dia
Não sei leitor, o que faço aqui neste dia, aporrinhando-o com minhas letras. Com tudo o que posso sugar da minha verdade, acho que nunca soube. Minha escrita é difícil de ter rumo, fácil de enjoá-lo, mas você, talvez por compaixão, ou mesmo por ócio, vez em quando lê tais cacarecos. Peço-lhe desculpas por decepcioná-lo, mas é que o drama me acompanha, confesso - e agradeço-lhe por me aturar. Tenho alguma dificuldade em esquecer-me e cuidar daquilo que realmente importa. Não estaria aqui se fosse sã, ocupar-me-ia em leis e números ou em escritos mais úteis. Pretendo desistir, apenas hoje, da poesia: ela me preenche com sonho e me esvazia com realidade. É que às vezes o chão se distancia deveras dos meus pés, sem que eu possa escolher entre flutuar e pisar firme. Não tenho escolha, leitor, nem você. A vida nos dá presentes e os tira, nos dá dores e as tira, sem que tenhamos grandes opções de manobra. É certo que alguma rédea é preciso ter, mas uma das mãos que a seguram são guiadas pelo vento. Não sei leitor, o que faço aqui nessa escrita. Se estivesse em outro lugar, talvez conseguisse respirar de cabeça para baixo e não me importaria se você virasse as costas à minha alma, ao meu texto. Ou se esse outro lugar estivesse em mim. Mas tudo vai bem assim, leitor. O entardecer continua bonito, visto da janela envidraçada da repartição, sempre a me dizer que tudo está exatamente como deveria ser e eu só não entendo o desenrolar dos acontecimentos porque ainda não foi chegada a hora. É esse futuro que nunca chega. Por mais que estejamos avisados, têm coisas que acontecem da noite para o dia: um nascimento, uma morte, uma chegada, uma partida, um milagre, uma grande decepção. Ainda tenho dúvidas se a existência tem algum brilho ou se esse que vejo é só invenção, uma maneira de enfrentar o mundo, de encarar seu olhar ora de curiosidade ora de tédio. Talvez fosse melhor passar doze horas a observar cachorros de rua do que escrever mediocridades. Tudo vai bem leitor, mas não sei como vou sobreviver ao dia de hoje.
Quinta-feira, Fevereiro 02, 2012
Pedaços
Tudo bem, leitor, não há como ser perfeita. Não aprenderei a fazer manobras andando de bicicleta, nem a decifrar logaritmos. Talvez um dia ame o homem mais bonito, mas não o de todos os tempos. Amigos às vezes sinto que nunca os tive, outras que tenho um batalhão deles. Mas os poucos do dia a dia, desses não posso reclamar. Nem sei por que me encanto por quem não tem parada. Provavelmente porque eu também não tenha, apesar de nunca sair do lugar. Sei lá qual o sentido dessa vida. Por mim, trataria apenas de amar... mas isso parece deveras perigoso, tal como existir. Sou egoísta, leitor. Não estou muito preocupada com a humanidade, apenas com cachorros tristes presos nas vitrines das clínicas veterinárias. E não faço nada a respeito. Falo apenas de mim, como se esse tema interessante fosse. Procuro há muito a verdade, mas tem sido difícil encontrá-la. Honestidade. Tem hora que a alma descola do corpo, flutua errante. E os olhos marejam, de tão vazios. Gostaria de não querer que qualquer natureza de gente ou de matéria fosse minha. Andar por aí inteira e desfrutar infinitos momentos presentes. Saber fazer tudo o que admiro para não desejar no outro a minha falta. Mas é tarefa árdua, leitor, já que há muito o que se admirar nesse mundo. Inveja, pecado capital, às vezes me ronda, devo confessar. E me corrói como presságio da minha mesquinhez. Dissimulação. Sim, leitor, às vezes dizemos coisas, escrevemos textos, até mesmo olhamos com torpes intenções. Tenho procurado em minha memória ser humano puro e não encontrei nenhum que não fosse pequenino. Então lembro-me dos olhinhos acinzentados de uma criança dizendo que estava com saudades da amiguinha que encontrava todos os dias. Saudade de todo dia é raridade, mas é tão boa de sentir! Bondades. Apesar de tudo, é preciso acreditar nelas. Continuarei minha busca, a de colar minha alma ao meu corpo, tornar-me humildemente inteira. Talvez isso nem exista, mas tem verdade que não faz mal inventar. Perfeita sei que não serei, mas tenho esperança de colar meus fragmentos.
Quarta-feira, Fevereiro 01, 2012
Desconexo
Virou o dia, acabou-se a arrelia. De repente, como se fosse nascente, o olho brilhou. De minha parte, nada foi inventado, nenhum sentimento malamanhado. Que bom, deste momento encontrei o tom...por hora, agora. Vai saber se coisa que acontece assim é verdade... um salto, um pulo da alma, espontânea. Ou será melhor acreditar em sensações tecidas por horas de pensamentos sorumbáticos? O desejo. Não há quem saiba de onde é que ele vem e por que realizá-lo por vezes dói tanto. Cansei-me de questionar as regras dos homens. Que mal há em querer ser igual a todo mundo? Algum. Seguiria todas, se isso possível ainda fosse. Mas passou-se o tempo e agora é só remendo no pensamento. “Tem coisa que não cabe na cabeça”, assim disse Rosuarda. Para o inferno quem quer brincar de ser Deus!
Quarta-feira, Janeiro 25, 2012
Enfim, enfim
Tristeza não bate na porta antes de entrar
Nem gente ruim avisa antes de se aproximar
Disseram-me que a vida era mais bonita
Que a bondade do mundo era infinita
E eu acreditei como criança
Mas dia desses desfiz minha trança
Meu pé fincou no chão duro
Que machucou de tão escuro
Não tentei sorrir, precisei chorar
Fiquei sem lugar para voar
Mas minha triste alegria
Também sem bater vai voltar um dia
Alguém já já ouvirá minha voz
E eu vou esquecer parte do que é atroz
Não sei quando começa a vida
Nem a exata hora da partida
Ilusão achar que homem a natureza acolhe
Porque raio lugar de cair não escolhe
Se em pedra ou em planta
Se em gente ou em anta
Pobre diabo humano, não é seu o mundo
Tem coisa muito maior por aí, ser imundo
Mas saber que a vida existe é bom
Pobre diabo humano, não é seu o mundo
Tem coisa muito maior por aí, ser imundo
Mas saber que a vida existe é bom
Ajuda a encontrar do mistério o tom
Tem hora que dá cansaço
Vontade de estancar o passo
Mas não posso mais
Porque vem gente atrás
A arte é mesmo o que salva
Ajuda a alma a ficar alva
Queria esta rima continuar
Até esse aperto sarar
Por isso a trova está sem fim
Onde está a lógica de tudo enfim?
Queria esta rima continuar
Até esse aperto passar...
Domingo, Dezembro 25, 2011
Boas Vindas
Sei lá de onde vim
E se tu queres mesmo chegar
Às vezes eu não queria estar neste mundo
Já vou logo me desculpando
É que já existia gente cruel antes de a gente aparecer
Mas talvez gostes de algumas coisas
De cachoeira, de mar e de chuva
Música, cinema, palhaço e arte
Nem tudo é assim tão bom, nem assim tão ruim
E ainda tem o mistério, não saber se há começo
Ou se tudo que há é uma coisa só
A vida não é fácil, mas tem horizonte e arco-íris
Seja bem-vindo, ser humano!
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