Este Lugar



Se por aqui passar, fique em silêncio se assim quiser, mas deixe um sinal se puder.
Se entediar, tenha paciência: minha palavra há de melhorar!



segunda-feira, janeiro 12, 2015

A morte da Jandira




Jandira morreu. Mas teve uma breve vida feliz e no derradeiro dia, o da morte, aliviou-se diante da notícia de que nunca existira. Não precisava mais esfumaçar a cabeça a pensar como teria sido se nunca tivesse chegado aqui e, por conseguinte, como iria embora. Na verdade, não precisou morrer, porque não existia. Não teve fadiga, não teve dor, não teve medo. Sua vida não passou como um filme na cabeça, pois nunca teve existência. A pele lisa, os cabelos cheios, as unhas fortes não apodrecerão sob a terra, pois não houve vida. Desculpe, raro leitor, tê-lo enganado por tanto tempo. Mas Jandira é só letra sem graça de computador em fundo branco. Veja você que personagem pífio, nem direito a caligrafia teve! Nunca se soube se ela era ruiva ou morena, se tinha todos os dedos dos pés. Na verdade, nenhum dos mundos jamais se preocupou com ela. Aliviou-se a Jandira por saber que a sua jornada não existiu. Ela era só brisa e não dependia de ninguém. Não se frustrava, não chorava, não sofria de amor. Sequer comia! Mas que confusão é possível fazer com palavras! Falar sobre a morte de quem não teve vida... por isso que leitor rareia. Escrever é mesmo coisa de vagabundos. Horas e horas enchendo um fundo branco pelo simples fato de que não pode ficar vazio. Mas a história da morte da Jandira há de ser contada! Os detalhes da partida e do funeral serão lidos um dia. Escutar-se-ão até os passos do cortejo fúnebre! Mas não hoje. Talvez no dia em que for possível viver sem nunca ter existido.


quarta-feira, abril 24, 2013

Pequena nota sobre o desespero




(...) Perseguia-me a vergonha. Carregava a sua pesada sombra, que não deixava-me esquecer da minha falta de tato. As pessoas da fila do supermercado pareciam todas me sentenciar. E também os grupos dos quais tentei fazer parte. Tinha tentando ser feliz, mas meu ego, ferido, arrebentou-se. Fiquei sozinha, estática, no canteiro do meio da avenida e caminhões passavam por todos os lados. Rezei desesperadamente, como se Deus tivesse começado a existir (...).

segunda-feira, fevereiro 25, 2013

Chegada




Leitor, meu caro, muito tempo se passou, tanto, que a Jandira, vejam só, teve um filho. O pequeno já vai para os oito meses e tornou a vida da nossa amiga menos turva. Não foi muito fácil o percurso da gestação, quase caiu a pobre, mas equilíbrio é coisa que vem de dentro, de fora o que chega é ventania que passa. Do parto ela conta que foi prova de que tem coisa real que mais parece sonho. O rebento chegou com velas acesas, ao som de mantras e músicas bonitas, bem assessorado pela parteira-enfermeira mais porreta que Jandira já vira na vida. “Vem em paz, vem em paz”, era o que ela dizia enquanto a cabecinha coroava. E veio. Molequinho sorridente, que parece gostar muito de estar nesse mundo doido, cheio de gente ruim se dando bem e gente boa se dando mau. E havia também as “cumádi” que, se ali não estivessem, com certeza teria sido tudo muito chato e frustrante. Jandira agora sabe que é forte. A força para expulsar um ser de dentro de si é mesmo inexplicável. Não sabia que tinha tanta, nem que mulheres guardavam-na consigo. Jandira tem lá suas arengas com Deus, mas sabe que aquilo ali só pode ser coisa Dele. E tudo, ter segurado a geração da vida ali, por nove meses, apesar de tanto ruido. Passava madrugadas olhando para o teto, o bebezinho se mexendo dentro dela, maquinando como ia cuidar de um serzinho, se nem de si sabia cuidar direito. Mas vai conseguindo, a força do parto lhe mostrara. Bebê parido, mecônio grudendo limpado. Nomes o moleque teve muitos, mas ficou com o de sempre. O guri vai crescendo. Encantou-se primeiro pelas faces humanas, depois pelas maozinhas, pelos pezinhos, agora pelos objetos, todos com a única função de ir à boquinha. Perninhas grossas, bracinhos que balançam freneticamente: sei lá, se fossem asas já tinha dado umas voltas aí pelo mundo. A placenta ficou guardada, empacotado e congelada por sete meses. Não era a intenção, mas só nesse tempo Jandira conseguiu dar fim. Enterrou-a no quintal dos ahoasqueiros, plantou um ipê amarelo em cima. Uma das cumádis tocou maracá e cantou. No fim, a época a ser plantada foi a melhor, das chuvas, quando tudo pega. Agora Jandira vai sonhando, imaginando que daqui a vinte anos o filho, homenzarrão, vai ver a árvore da mesma idade dele. Jandira não acredita em muita coisa, mas, ao mesmo tempo, em tudo. É bom inventar rituais. Torna a vida mais leve e ajuda a realizar sonhos. Já era flutuante, agora vê a existência com mais magia. Ao mesmo tempo, sabe melhor que tem muita gente ruim no mundo. Talvez tenha aprendido a melhor se preservar, e a seu filho. Bebê em casa é bom, cada dia uma novidade, detalhezinhos minúsculos que explicam a escala da vida. Não enxergamos, mas tem sempre algum pormenor fazendo o mundo girar. Muita coisa tem ela para contar. Passaria linhas e mais linhas falando sobre o pequeno e sobre um amor que não sabe de onde vem e da capacidade que tem de ser cada dia maior. Não sabe mesmo a Jandira onde é que cabe tanto. E leitor, caro, quem quiser que diga que é clichê, mas amor, esse daí não há outro sentimento que o vença. Mais Jandira ainda vai contar. Por hora, melhor parar que a parte da vida que todo mundo vê está chamando. Mas a magia, vista por poucos, essa daí fica guardadinha, até as próximas linhas...

domingo, dezembro 30, 2012

Vã Mesóclise


Mandá-lo-ia para o inferno
Chutar-lhe-ia os culhões
Quebrar-lhe-ia os ossos
Zangar-me-ia com o diabo
Creditar-lhe-ia o envio daquela vil presença
Fazê-lo não posso
Emprego a mesóclise em vão
E os demônios continuam soltos pelo mundo...

domingo, junho 17, 2012

Perdão



Perdoar-me-ia se pudesse
Se não tivesse um programa na cabeça
Disseram-me para me culpar desde pequenina
Na missa, aquele homem assustador
Que bebia o sangue de Cristo
Mas não fiz nada errado, seu Padre
Apenas escorreguei na minha própria bondade
E fiquei sozinha mirando o horizonte
Quem estava em volta considerou banal
É que cada um sabe a medida do próprio sofrimento
Não é necessário perdoar todos, basta a si mesmo
Nem forjar fortalezas que não existem
Sou humana, seja lá o que isso signifique...

 

 

quarta-feira, maio 09, 2012

Relações - parte II



É sua sogra?
Não, será avó do meu filho
Vai ter dama de honra no casamento?
Não vou me casar
De quanto tempo é a gestação?
Meses
Você vai comprar um apartamento?
Talvez
Veja isso com seu marido...
(...)
E vocês, estão juntos há quanto tempo?
Há dez anos
Pobrezinhos, não podem ter filhos, não é?
(...)
Quantos anos você tem?
Quarenta
É casada?
Não
Tem filhos?
Não
Estranho...
(... e assim prosseguem as pessoas, inventando motivos para transformar acontecimentos belos em sofrimento.)

domingo, abril 08, 2012

A Escolha


 

Entre a certeza e a dúvida, escolhi a última
Entre Deus e o diabo, preferi o mistério
Da vida e da morte ninguém sabe
Nem na hora do gozo quando não se olha nos olhos
Ou na hora da raiva quando não se vê a alma
Não estaria aqui agora se tivesse jogado outros dados
Se tivesse ficado na cama resolvendo equações
Se não tivesse vestido minha saia com bolsos grandes
E sido atraída por uma sombra encostada na parede
Os bares e a festas não são lugares de pessoas sãs
Nem as Igrejas, os Templos e os Terreiros
Amigos só tenho três, que quando precisei não procurei
Se todo mundo fosse humano, não existiria curupira
Que Deus vá para o inferno e o Diabo para o céu
Não escolhi uma vez, escolhi duas mil escolhazinhas
E a melhor de todas será meu bem maior

Minha escolha, agradeço